PERSPECTIVA

HUMANIDADE NO TRABALHO

16.06.2026

Burnout, solidão corporativa e parentalidade expõem os limites de um modelo que já não responde às necessidades das pessoas. O trabalho nunca foi tão eficiente, e as pessoas nunca pareceram tão cansadas. Em 2025, o Brasil registrou mais de 500 mil afastamentos por transtornos mentais e comportamentais, o maior número da série histórica, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Entre eles, os casos de burnout cresceram mais de 800% em relação aos registros de quatro anos antes, refletindo um cenário em que temas como saúde mental, pertencimento, flexibilidade e qualidade das relações passaram a ocupar o centro das discussões sobre produtividade e futuro do trabalho.

Para entender o que está mudando, o STATE Journal conversou com Dani Junco, fundadora da B2Mamy, Genesson Honorato, pesquisador do comportamento humano e Carol Romano, especialista em saúde social. Em comum, os três defendem uma ideia provocadora: talvez a maior transformação do trabalho não seja tecnológica, mas humana.

A maternidade como espelho do sistema

Para Dani Junco, a maternidade não cria problemas dentro do mercado de trabalho. Ela apenas revela problemas que já existiam.

“A maternidade escancara uma verdade que muitas pessoas já sentiam, mas não conseguiam nomear: o mercado foi estruturado como se todos fossem indivíduos sem corpo, sem cuidado, sem limites e sem vida fora do trabalho.”

A percepção encontra respaldo em números recentes. O relatório Women @ Work 2024, publicado pela Deloitte, ouviu cerca de 5 mil mulheres em dez países e revelou que 50% das entrevistadas relataram níveis elevados de estresse, enquanto 43% afirmaram sentir-se frequentemente exaustas. Entre aquelas com responsabilidades de cuidado, o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal apareceu como uma das principais fontes de pressão.

No Brasil, a desigualdade também aparece dentro de casa. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgados pelo IBGE em 2024, mostram que as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e cuidados de pessoas, enquanto os homens dedicam 11,7 horas. A diferença ajuda a explicar por que muitas profissionais vivenciam jornadas duplas ou triplas mesmo quando ocupam posições de liderança.

Segundo Dani, quando uma mulher se torna mãe, passa a questionar ideias que durante décadas foram naturalizadas nas organizações, como disponibilidade infinita, produtividade constante e performance sem interrupções.

 “A maternidade não cria a fratura. Ela revela uma fratura que já existia.”

O tema também ganhou relevância em um momento em que as empresas enfrentam dificuldades crescentes para atrair e reter talentos. No estudo Women in the Workplace 2024, produzido pela McKinsey em parceria com a LeanIn.Org, mais de um terço das mulheres entrevistadas afirmou considerar deixar o emprego por falta de flexibilidade, oportunidades de crescimento ou apoio às responsabilidades familiares.

Na visão da empreendedora, a discussão sobre parentalidade ainda é tratada como pauta social, quando deveria ser entendida como estratégia de negócio.

“Cuidado não é pauta social. É infraestrutura econômica.”

A avaliação dialoga com um levantamento publicado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) em 2024, segundo o qual políticas de apoio à parentalidade estão associadas a maiores índices de retenção de talentos, participação feminina no mercado de trabalho e produtividade organizacional.

A robotização do ser humano

Se Dani observa o tema pela lente da maternidade, Genesson Honorato propõe uma análise biológica do trabalho. Para ele, as empresas passaram décadas incentivando comportamentos incompatíveis com os limites humanos.

“Nós normalizamos a ideia de que podemos trabalhar como máquinas. Criamos um modelo inadequado ao próprio criador.”

Honorato chama atenção para discursos corporativos que glorificam a exaustão e transformam o excesso de trabalho em símbolo de valor. “Miramos no lifelong learning e acertamos no lifelong burnout.” Os números ajudam a explicar a crítica. O relatório State of the Global Workplace 2025, publicado pela Gallup, revelou que apenas 21% dos trabalhadores no mundo se consideram engajados em suas atividades profissionais. Ao mesmo tempo, 40% afirmaram sentir estresse diário, um dos maiores índices já registrados pela pesquisa global.

Na avaliação do pesquisador, os recordes de adoecimento emocional refletem uma desconexão crescente entre as exigências do mercado e as necessidades humanas.

“Estamos muito online por dentro e offline por fora.”

A observação encontra eco em outras pesquisas. Em 2024, a consultoria Cigna Healthcare divulgou um estudo internacional mostrando que mais da metade dos entrevistados relata sentimentos frequentes de solidão, apesar do aumento das interações digitais. Paralelamente, o relatório Work Trend Index 2024, da Microsoft, apontou que os trabalhadores recebem, em média, centenas de interrupções digitais por semana entre e-mails, mensagens, reuniões e notificações, reduzindo a capacidade de concentração e aumentando a sensação de sobrecarga.

Para Honorato, o problema não está apenas na quantidade de trabalho, mas na perda de significado.

Segundo ele, o desafio das organizações não é apenas melhorar processos, mas compreender que produtividade sustentável depende de fatores emocionais, cognitivos e biológicos que não podem ser ignorados.

A nova fronteira do bem-estar

Para Carol Romano, a próxima grande discussão dentro das organizações não será apenas saúde física ou mental, mas saúde social. A especialista lembra que pesquisas recentes mostram que relações profissionais têm impacto direto sobre felicidade, engajamento, criatividade e até longevidade. “Saúde física e mental não existem isoladamente das relações humanas.”

A afirmação acompanha uma preocupação crescente de organismos internacionais. Em 2023, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e as Nações Unidas criaram a Comissão Global sobre Conexão Social para investigar os impactos da solidão na saúde pública. Um dos dados apresentados pela iniciativa mostra que o isolamento social está associado a maiores riscos de doenças cardiovasculares, ansiedade, depressão e mortalidade precoce.

Carol cita estudos que apontam a qualidade dos vínculos como um dos principais fatores para o bem-estar das pessoas. Um dos exemplos mais conhecidos é o Projeto Aristóteles, conduzido pelo Google e divulgado em 2016 após analisar cerca de 180 equipes ao longo de dois anos.

“O principal fator de performance não foi talento individual ou senioridade. Foi segurança psicológica.”

Segundo o estudo, equipes que apresentavam altos níveis de segurança psicológica demonstravam maior colaboração, aprendizado coletivo, inovação e capacidade de resolver problemas complexos. A discussão também aparece em pesquisas mais recentes. O relatório Global Human Capital Trends 2024, da Deloitte, identificou que confiança, pertencimento e qualidade das relações estão entre os principais fatores associados ao engajamento e à permanência dos profissionais nas organizações.

Para Carol, em um mundo cada vez mais automatizado, a capacidade de construir confiança, colaboração e pertencimento será um dos ativos mais valiosos das empresas.

O que vem depois?

Apesar das diferentes perspectivas, os três entrevistados convergem em um mesmo diagnóstico: o modelo tradicional de trabalho está chegando aos seus limites. Durante décadas, produtividade foi confundida com presença constante, exaustão foi interpretada como comprometimento e disponibilidade virou sinônimo de valor profissional.

Agora, o avanço da inteligência artificial, o aumento dos casos de burnout e a crescente busca por equilíbrio parecem indicar uma mudança de rota. O próprio Fórum Econômico Mundial apontou, em seu relatório Future of Jobs 2025, que habilidades como inteligência emocional, resiliência, criatividade, colaboração, pensamento analítico e liderança social estarão entre as competências mais valorizadas pelas organizações ao longo da próxima década, justamente atributos que as máquinas ainda não conseguem reproduzir plenamente.

Talvez o futuro do trabalho não seja apenas sobre produzir mais. Talvez seja sobre construir ambientes onde as pessoas possam permanecer saudáveis enquanto produzem. Porque, no fim das contas, as empresas são feitas de pessoas. E as pessoas não funcionam como máquinas.

Últimos posts