PERSPECTIVA

O mal-estar da Geração Z

05.06.2026

Com o aumento da expectativa de vida, que chegou a 76,6 anos em 2024, o maior valor já registrado pelo IBGE desde 1940, inseguranças no cenário político e uma aposentadoria cada vez mais adiada, o mercado de trabalho parece viver um momento único: cinco diferentes gerações dividem o mesmo ambiente profissional.

Convivem hoje os Baby Boomers (nascidos entre 1946 e 1964), a Geração X (1965–1980), os Millennials (1981–1996), a Geração Z (1997–2010) e até a Geração Alpha (nascidos após 2010), que já começa a ingressar no mercado como jovem aprendiz. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o total de aprendizes ativos em junho de 2025 chegou a quase 700 mil, estabelecendo um recorde histórico.

Essa diversidade geracional oferece uma riqueza de perspectivas. Segundo pesquisa da plataforma LiveCareer, 89% dos entrevistados enxergam a convivência entre gerações de forma positiva, enquanto 87% consideram que aprender com diferentes faixas etárias pode enriquecer a experiência profissional. O relatório da PwC Brasil, em parceria com a FGV EAESP, reforça esse ponto: 95% dos participantes concordam que a convivência entre diferentes idades traz benefícios para as empresas.

Do outro lado, os desafios continuam. Ainda segundo a pesquisa da LiveCareer, 78% dos entrevistados afirmam que ambientes multigeracionais podem apresentar mais conflitos e se tornar mais desafiadores. Já uma pesquisa da InfoJobs, que ouviu 1.222 profissionais, constatou que 57% já sofreram algum tipo de preconceito relacionado à idade. O número sobe para 73% entre profissionais das gerações Y e Z, que afirmam se sentir subestimados por serem mais jovens.

A Gen Z já chegou com novas regras

A Geração Z representou cerca de 27% da força de trabalho global em 2025, e a previsão é que esse percentual ultrapasse 30% nos próximos cinco anos, segundo relatório da McKinsey.

Para essa geração, o trabalho vai além do salário. Segundo pesquisa da Deloitte (2024), 88% da Gen Z consideram essencial ter um senso de propósito para alcançar satisfação profissional, enquanto 44% afirmam que rejeitariam propostas de empresas desalinhadas aos seus princípios éticos. Além do propósito, autonomia e flexibilidade aparecem como prioridades centrais. Uma pesquisa do LinkedIn, realizada em 2024, mostra que 72% dos profissionais da Gen Z já deixaram, ou consideraram deixar, empregos que não oferecem modelos híbridos ou remotos. Para efeito de comparação, esse índice cai para 55% entre Millennials e 40% entre profissionais da Geração X.

Para entender o que essa flexibilidade significa na prática, conversamos com Anna Bottene, estrategista e coordenadora de redes sociais da Carcará, coletivo de profissionais de comunicação digital que vai ao escritório apenas duas vezes por mês.

“Ter mais tempo para realizar as atividades de uma rotina doméstica, como cuidar da casa, preparar o almoço e cuidar dos pets”, conta Bottene, pertencente a Gen Z.

Uma escada geracional de insatisfação

Quanto mais jovem, pior a percepção sobre o próprio bem-estar no trabalho. É o que revela o Check-up de Bem-Estar 2025, da Vidalink: 30% da Geração Z avaliam negativamente sua satisfação profissional, contra 25% dos Millennials, 17% da Geração X e apenas 6% dos Baby Boomers.

Gráfico da análise positiva ou negativa de diferentes gerações sobre o trabalho. Produzido com base nos dados do relatório Check-up de Bem-Estar 2025 - Vidalink

Essa insatisfação também se reflete na relação com a liderança. Segundo pesquisa da Visier, 40% da Gen Z não desejam ocupar cargos de gestão por associarem essas posições a mais estresse e pressão. Outros 39% afirmam não querer fazer horas extras, enquanto 37% dizem já estar satisfeitos com o atual nível de responsabilidade. Lidos em conjunto, esses números não descrevem uma geração acomodada, mas profissionais que recusam, conscientemente, um modelo tradicional de ascensão profissional que já não faz sentido para eles.

Saúde mental: a Geração Z é a mais afetada

Em 2025, o Brasil registrou um recorde histórico de afastamentos do trabalho por transtornos mentais e comportamentais: foram mais de 500 mil licenças, um aumento de quase 16% em relação a 2024, segundo dados do Ministério da Previdência Social. São Paulo lidera o ranking nacional, com mais de 149 mil afastamentos, seguido de Minas Gerais, com mais de 83 mil, e Rio Grande do Sul, com mais de 46 mil.

A saúde mental também aparece como uma preocupação crescente entre a Gen Z, e parece existir uma correlação direta: quanto mais jovem o profissional, maior a prevalência de sentimentos negativos. Segundo dados do Check-up de Bem-Estar 2025, da Vidalink, 72% das mulheres e 51% dos homens da Geração Z relatam sentimentos negativos na maior parte dos dias. Entre os Millennials, os índices caem para 62% entre mulheres e 46% entre homens.

Gráfico de avaliação de sentimentos negativos em diferentes gerações. Produzido com base nos dados do relatório Check-up de Bem-Estar 2025 - Vidalink

Apesar de ser a geração mais impactada emocionalmente, também é a que mais declara “não fazer nada” para cuidar da saúde mental. Qual seria o descompasso dessa inação? Segundo o relatório "Perception of Youth Mental Health Report 2025", 6 em cada 10 jovens da Geração Z se sentem paralisados e sobrecarregados pelas crises globais, notícias e mídias sociais. O estudo conclui que esse nível extremo de ansiedade e medo com o futuro - devido a questões como crise climática, cenário global, economia e mercado de trabalho competitivo - expõe esses jovens a um nível extremo de estresse, chegando a um sentimento de overwhelm (sobrecarga emocional) e, por isso, sensação de "nada que eu fizer vai resolver".

Apesar de ser uma das gerações com mais abertura de falar sobre saúde mental e questões relacionadas a área, o ponto de parada pode ter razões econômicas. Segundo o relatório McKinsey (2022), 1 em cada 4 entrevistados da Geração Z relatou não ter condições de arcar com os custos de cuidados de saúde mental.

O que essa geração está, de fato, pedindo?

A Geração Z não está apenas reclamando. Ela está sinalizando, por meio de dados e comportamento, onde o modelo atual falha, e o que precisa ser reconstruído. Propósito, flexibilidade, saúde mental e equilíbrio deixaram de ser benefícios extras. Para essa geração, são pré-requisitos. No fim do dia, a Gen Z parece fazer um convite silencioso ao mercado: construir um futuro do trabalho mais humano, sustentável e equilibrado. 

*Colaborou: Luana Aquino

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