PERSPECTIVA

CONSUMO CIRCULAR

07.04.2026

Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), em 2024, 85% das indústrias no Brasil desenvolveram pelo menos uma prática de economia circular. Entre as práticas mais adotadas, a reciclagem estava presente em 1/3 das empresas, seguida do uso de matéria-prima secundária nos processos produtivos (30%) e o desenvolvimento de produtos com foco na durabilidade (29%).

Apesar do entendimento da importância da mudança no consumo desenfreado, mundialmente esse esforço ainda é tímido: o planeta tem 7,2% de circularidade, uma estimativa do Circular Economy Foundation. Do outro lado, segundo a Global Footprint Network, a humanidade consome atualmente o equivalente a 1,75 planetas por ano, operando em um déficit ecológico contínuo. Historicamente, a extração de recursos naturais triplicou desde 1970, é o que aponta o relatório Global Resources Outlook da ONU, reforçando a importância de iniciativas que minimizem esse desafio.

Pensar na transição energética é suficiente?

Para a Ellen MacArthur Foundation - criada em 2010 para acelerar a transição circular - pensar em apenas trocar a fonte de energia é esquecer que o modelo de economia linear "extrair, fabricar e descartar" continua impulsionado pela lógica do consumo. Para eles, implementar medidas de eficiência energética é essencial, contudo, essas ações relacionadas à energia só podem abordar 55% das emissões globais. E os 45% que restantes?

Ainda segundo a fundação, essa porcentagem das emissões globais estão diretamente relacionadas à forma como são produzidos os produtos, materiais e alimentos dentro da economia extrativista. Para eles, para ajudar a combater essas emissões remanescentes, seria necessário praticar o princípio que denominam de "circulate products and materials", em tradução livre "manter produtos e materiais em circulação", permitindo, assim, que as emissões incorporadas sejam retidas dentro da economia.

Foi pensando nisso que a startup residente do STATE, Box24x7, foi criada. São uma plataforma de economia circular e oferecem acesso a uma ampla variedade de produtos. Em vez de comprar e acumular, você aluga o que precisa pelo tempo necessário, diretamente no app, com entrega em até 60 minutos. Para entender a fundo sobre essa solução, entrevistamos o Artur Carvalho, cofundador, e o Fabio Ginzel, CEO dessa startup.

Olhando para trás, qual funcionalidade ou estratégia da Box24x7 nasceu de um erro de planejamento, mas que acabou se tornando essencial?

"A Box24x7 começou com a ideia de armários inteligentes espalhados pela cidade. Era lindo no PowerPoint. A pessoa reservava pelo app, ia até o locker mais próximo, retirava o produto e depois devolvia ali mesmo. Totalmente automatizado, escalável, sem contato humano. Um “vending machine de objetos”. O problema é que a vida real não é um slide. Percebemos rápido três coisas: as pessoas não querem andar até um armário carregando uma furadeira ou uma extratora pesada; instalar lockers em escala urbana é caro, burocrático e lento; e a demanda não é uniforme, então alguns armários ficavam vazios enquanto outros saturavam. Para não perder locações, começamos a entregar na casa do cliente. Era quase um improviso. Só que as pessoas amaram. Muito mais conveniente e sem fricção. Daí veio a virada de verdade: em vez de concentrar estoque, passamos a distribuir produtos pela cidade, próximos da demanda, operados por microdistribuidores locais. Isso reduziu tempo de entrega, custo logístico e estoque parado. Hoje nosso modelo é praticamente o oposto do original. Em vez de infraestrutura pesada, temos uma rede leve e hiperlocal. Não são máquinas espalhadas pela cidade, são pessoas e ativos ociosos conectados por software. Se tivéssemos insistido nos armários, provavelmente seríamos uma empresa cara e lenta. Pivotando para delivery descentralizado, viramos uma plataforma escalável."

Vocês conveceram os tubarões na 10ª temporada do Shark Thank, onde o Semenzato olha para escala e a Carol para o financeiro. O que eles viram na Box24x7 que os convenceu de que o brasileiro está pronto para parar de “possuir” e começar a “alugar”?

"A conta fecha muito rápido quando você olha o uso real dos produtos. A maioria das coisas caras fica parada a maior parte do tempo. Quando mostramos que dá para ter acesso imediato sem imobilizar dinheiro nem espaço, a chave vira. O brasileiro não é apegado à posse em si, ele é apegado à conveniência. Se alugar for fácil, rápido e confiável, ele troca sem drama."

Vocês prometem a locação em 1 hora. No lado B da operação, qual é o tamanho do caos logístico para garantir que um martelete ou uma barraca esteja disponível e higienizada nesse tempo?

"É um caos organizado. Um pouco de tecnologia, um pouco de processo e bastante disciplina operacional. Operamos quase como um controle de tráfego aéreo de objetos. Existe previsão de demanda, reposicionamento de estoque, parceiros logísticos e uma obsessão saudável por tempo. Se algo falha, não dá para empurrar para amanhã. O sistema foi desenhado para absorver imprevistos e mesmo assim entregar rápido."

A furadeira média é usada cerca de 13 minutos em toda a vida útil. Como vocês combatem a barreira psicológica da posse?

"Mostrando que posse não é liberdade, é responsabilidade. Guardar, manter, limpar, ocupar espaço… tudo isso é custo invisível. Quando a pessoa usa uma vez, devolve e nunca mais precisa pensar no assunto, ela entende rapidamente o valor. Não tentamos convencer no discurso. Convencemos na experiência. Depois do primeiro aluguel bem-sucedido, a maioria volta."

Vocês têm um time remoto que se encontra periodicamente no galpão. No mundo do trabalho de 2026, o escritório virou destino, não obrigação. Como vocês usam o STATE para tornar esses encontros mais potentes?

"Usamos o presencial para aquilo que o remoto não resolve: alinhamento profundo, decisões estratégicas e energia de equipe. Somos uma startup em crescimento acelerado e cultura é uma das coisas mais difíceis de construir apenas online. Processos funcionam remoto, cultura não. Por isso, encontros presenciais pelo menos uma vez por mês são essenciais para garantir alinhamento, confiança e senso de time. Não faz sentido reunir pessoas só para abrir notebook em silêncio. Quando nos encontramos, saem decisões mais rápidas, discussões produtivas e ideias que dificilmente surgiriam em uma videoconferência."

Já que vocês operam na economia do compartilhamento, como é compartilhar o ambiente de trabalho no STATE? Já rolou conexão durante o café?

"Nada mais natural para uma empresa que nasceu com o espírito do compartilhamento do que estar em um ambiente compartilhado. E aqui isso vai além do espaço físico. No STATE compartilhamos ideias, visões e estratégias o tempo todo, com o time, entre fundadores, com investidores e também com outros residentes. Já surgiram muitas conexões no café, na mesa de trabalho e até no restaurante. Conversas informais frequentemente se transformam em insights estratégicos, parcerias ou soluções para problemas reais. Somos muito satisfeitos de o STATE ser a casa da Box24x7. Faz total sentido para uma empresa baseada em acesso e colaboração estar em um ambiente que funciona exatamente dessa forma."

Qual é o objeto mais inusitado que vocês já viram circular?

"Curiosamente, não são coisas mirabolantes, são itens comuns fora do contexto habitual. Produtos de cozinha fazem muito sucesso. Airfryer, liquidificador, sanduicheira. Parece trivial, mas faz total sentido para quem está hospedado em flat, Airbnb ou hotel por alguns dias e não quer depender apenas de delivery caro. Outro item curioso é power bank. Em dias de chuva forte ou apagão a demanda dispara. O celular vira item de sobrevivência urbana, não apenas de comunicação. E as churrasqueiras portáteis são um clássico. Aparecem em feriados, jogos importantes ou reuniões improvisadas, quando ninguém planejou nada, mas alguém sugere fazer um churrasco. A gente basicamente viabiliza decisões impulsivas com infraestrutura. No fundo, não é sobre objetos exóticos, é sobre momentos específicos da vida. A economia do acesso funciona porque a necessidade é temporária, mas a vontade é imediata."

Vocês estão transformando o “quarto da bagunça” em fonte de renda. Qual a sensação?

"É uma sensação muito positiva porque vai além de renda extra. A gente vê pessoas que antes eram mais dependentes, ou até consideradas improdutivas pela sociedade, começando a ganhar dinheiro com tranquilidade, trabalhando de casa e no próprio ritmo. Importante esclarecer que não é simplesmente alugar coisas usadas que estavam paradas. No nosso modelo, o parceiro investe em produtos novos, itens do dia a dia com demanda comprovada. O trabalho consiste em cuidar bem, higienizar e manter tudo pronto para o próximo cliente. No fim, é autonomia com previsibilidade. Sem deslocamento, sem rotina rígida e com um investimento que passa a gerar retorno."

STATE STUDIOS

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