
Entre algoritmos cada vez mais presentes no cotidiano das empresas e modelos de trabalho em rápida transformação, o debate sobre o futuro do trabalho deixou de ser apenas tecnológico para se tornar, sobretudo, humano. Em conversa com a jornalista Renata Rivetti, Jorge Pacheco, CEO e fundador do STATE, discute como, a partir de 2026, organizações serão pressionadas a repensar não apenas ferramentas e processos, mas também cultura, liderança e a forma como as pessoas se relacionam dentro e fora do escritório. Em um cenário marcado por trabalho híbrido, diversidade de equipes e inovação acelerada, habilidades como pensamento crítico, colaboração e empatia tendem a ganhar protagonismo, enquanto temas como saúde mental, propósito e ambientes de trabalho mais flexíveis passam a ocupar o centro das estratégias corporativas.
STATE (JP) - O futuro do trabalho tem sido muito associado à tecnologia e à IA. Na sua visão, o que muda no comportamento humano dentro das organizações a partir de 2026?
Renata Rivetti - O mundo do trabalho é cada dia mais complexo. A gente tem modelos híbridos, cenários globalizados, mudanças acontecendo o tempo todo e uma grande evolução na IA entrando no dia a dia dos profissionais. Por isso, a gente vai precisar ter alguns pontos muito importantes, como voltar, de fato, a criar novas formas de a gente se relacionar. Então, a grande mudança que a gente precisa fazer é ter um olhar mais para o ser humano, não só para o resultado do trabalho.
Então, é como a gente se torna cada vez mais generalista, que consiga resolver problemas, reforçar o pensamento analítico, crítico, criativo e, principalmente, trabalhar as conexões humanas. Esse vai ser um grande diferencial para um futuro do trabalho que vai passar por grandes mudanças tecnológicas.
STATE - Como propósito, bem-estar e desempenho deixam de ser discursos paralelos e passam a fazer parte da estratégia central das empresas?
Renata Rivetti - Nesse cenário que a gente vive hoje, certamente existe uma grande sobrecarga. E com isso, profissionais exaustos e adoecendo. Se a gente não olhar para a saúde mental e o bem-estar das pessoas, a gente tem uma grande perda da sustentabilidade humana, o que vai acabar impactando em negócios. Hoje a gente já tem altos índices de absenteísmo, de turnover, de licenças médicas por saúde mental. Então, não cuidar da saúde mental e do bem-estar das pessoas como estratégia de negócios vai trazer perdas muito significativas.
STATE - Espaços de trabalho dizem muito sobre a cultura de uma organização. Qual é o papel dos ambientes criativos e flexíveis na atração, retenção e engajamento de talentos?
Renata Rivetti - Se antes a gente achava normal ficar, às vezes, numa sala fechada, trabalhando oito, dez horas por dia, hoje a gente consegue entender, a neurociência mostra que a gente precisa de ambientes que tragam, promovam o contato uns com os outros, que a gente possa ter o espaço do descanso. Então, tudo que parece, muitas vezes, superficial, é o básico para a gente poder construir, de fato, um dia a dia. Que eu consiga me relacionar bem com as pessoas, que eu consiga também ter meu espaço de descanso, que eu consiga ver coisas diferentes também, para que realmente eu consiga focar na hora que eu tiver que focar no trabalho e tenha mais criatividade, inovação dentro dos meus resultados.
STATE - O trabalho híbrido veio para ficar, mas ainda gera dilemas. O que diferencia um espaço que realmente estimula colaboração de um que apenas replica o escritório tradicional fora da sede?
Renata Rivetti - Não tem uma fórmula mágica, mas certamente o modelo híbrido é o modelo que traz mais resultados. Mas não é simplesmente a gente entrar dentro de um escritório e cada um ligar o seu computador.
A gente precisa cocriar novos caminhos para o futuro do trabalho, principalmente entendendo como é que a gente, quando estiver juntos, a gente realmente trabalha juntos. Então a gente precisa sair de um lugar individual nesse modelo híbrido e ir para um modelo que seja mais colaborativo, que seja mais cocriado, que seja planejado em conjunto para que a gente possa chegar a melhores resultados. Hoje o que a gente está perdendo no modelo híbrido, e por isso muitas empresas acabam voltando, muitas vezes 100% para um escritório padrão, é porque elas não estão sabendo utilizar de fato os benefícios da flexibilidade e de estruturas que sejam mais colaborativas.
STATE - Ambientes compartilhados e hubs de inovação têm crescido nas cidades. Que tipo de conexões e aprendizados informais esses espaços proporcionam que dificilmente acontecem em estruturas corporativas fechadas?
Renata Rivetti - Tem vários dados que mostram que a diversidade é essencial para a gente inovar.Não existe inovação em um ambiente que não tem diversidade, que não tem segurança psicológica. Então, quando a gente vai para espaços que são mais criativos e que as pessoas se relacionam de uma outra forma, certamente a gente está estimulando essa diversidade, essa visão criativa e um olhar que muitas vezes vai trazer novos resultados.
STATE - Na sua experiência, como a troca entre diferentes empresas, perfis e setores pode acelerar inovação e ampliar repertórios profissionais?
Renata Rivetti - O que antes a gente pensava que era muito difícil de acontecer, de repente uma colaboração de marcas que não tinham nada a ver, segmentos distintos, hoje a gente vê acontecendo. Então não é mais só sobre olhar o meu concorrente, olhar o meu mercado e tentar me destacar. Hoje produto muito fácil se copia, até serviços, agora estão realmente disputando espaço. Então a gente precisa de inovação para poder ter melhores resultados. E para isso a gente vai ter que de fato fazer diferente, pensar em marcas que não tinham nada a ver e que podem colaborar e pensar em novas formas de a gente se relacionar com o consumidor num mundo que está passando por constante evolução e uma tecnologia crescente.
STATE - Existe um risco de romantizar o futuro do trabalho sem repensar lideranças e modelos de gestão? O que ainda precisa mudar com urgência dentro das empresas?
Renata Rivetti - Hoje existe um olhar muito superficial para o bem-estar e como se de fato fosse algo que a gente pode oferecer para o colaborador. Então as empresas têm tratado os sintomas, mas não a causa raiz. E eu acredito que o futuro do trabalho depende de forma urgente e necessária de mudanças mais estruturais, modelos mais flexíveis, novas formas das pessoas atuarem, talvez novos horários de trabalho. E para isso a gente vai ter que rever o que sempre foi feito, discutir que talvez não funcione mais o que já funcionou aqui nesses últimos 100 anos. E que a gente fez pouquíssimas mudanças apesar do mundo ter mudado completamente. Então está na hora da gente deixar ruir um pouco o modelo atual e tentar construir novos caminhos.
STATE - Se você tivesse que resumir o futuro do trabalho em uma palavra ou atitude, qual seria, e por quê?
Renata Rivetti - Acredito que o futuro do trabalho passe por humanidade, se a gente quer de fato fazer diferente a gente vai ter que olhar muito mais para o ser humano, por trás da máquina, por trás dos resultados e entender que o grande diferencial, segundo o Fórum Econômico Mundial, já são as habilidades humanas. Eu acho que é isso que a gente está precisando resgatar e poder de fato construir um caminho que seja mais empático, mais humano e que seja talvez mais próspero e produtivo também, de uma nova forma.
*Colaborou Luana Aquino
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