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O futuro folheável

18.02.2026

Entre o ruído constante das notificações e a urgência do tempo real, ainda há quem escolha parar, folhear e permanecer. 

Neste encontro entre o STATE — um centro de inovação que pensa o futuro das cidades, da cultura e das formas de viver, e a Esquire, revista que atravessa décadas sem perder densidade nem estilo, a conversa parte de uma provocação simples e necessária: qual é o lugar do impresso em um mundo que não para de deslizar telas?

Quem dá voz à Esquire é Luciano Ribeiro, diretor-geral da publicação no Brasil, que conduz o diálogo a partir da experiência de quem vive o jornalismo impresso por dentro, entre capas, editoriais e leitores fiéis. As perguntas que seguem exploram memória, relevância, transformação e permanência, colocando frente a frente a lógica dos algoritmos e o valor do papel, o efêmero do feed e a longevidade de uma edição guardada na estante. 

É um papo sobre resistência criativa, tempo, curadoria, e sobre o que ainda vale a pena ser lido com calma.

Como é sobreviver em um mundo onde todos deslizam telas, mas poucos viram páginas?

"Não sou saudosista. Prefiro esse mundo mais plural, cheio de canais, de opiniões divergentes, de pessoas que nunca teriam acesso a uma redação de jornal mas que, graças ao celular, às telas, têm suas opiniões ouvidas e compartilhadas por muitos. Particularmente, continuo virando muitas páginas, especialmente de livros, já que não me adaptei ao Kindle."

Você sente saudade do tempo em que as pessoas colecionavam edições em estantes ao invés de abas no navegador?

"Sinceramente não. Quando trouxemos a Esquire para o Brasil sempre soubemos que a revista seria um produto premium, exclusivo e destinado a poucas pessoas. Mas o navegador ajuda que uma reportagem da Esquire que talvez ficasse restrita a dez mil pessoas hoje possa alcançar centenas de milhares. Há posts nossos com milhões de visualizações e eu acho isso um avanço."

Qual foi a maior transformação que sofreu para continuar relevante?

"Trabalhar os múltiplos canais que uma marca como a Esquire permite."

Como é viver com lançamentos periódicos, enquanto tudo ao redor acontece em tempo real?

"Lançar uma revista impressa a cada dois meses é muito prazeroso. Tudo o que circunda ela: as reuniões de pauta, a edição de cada reportagem, a montagem, a produção, lidar com a equipe, o fechamento. A operação impressa é lucrativa graças às marcas de luxo que ainda entendem que ali você está falando com um público específico."

Qual é o seu maior orgulho: a capa, o editorial ou aquele leitor que te guarda na gaveta por anos?

"Saber que de alguma maneira você pode ter feito o bem para o outro. Um restaurante que encheu, um arquiteto que fechou contratos, um artista que passou a ser mais reconhecido, coisas assim que talvez a Esquire possa ter proporcionado."

 

Nos últimos 3 anos, presenciamos um retorno ao impresso, muito marcado por uma vontade de sair do digital e ficar um tempo offline. Como avaliam isso? Acreditam que será uma tendência duradoura? 

"Acredito que sim. Outro dia, minha sobrinha Laura, de 17 anos, carioca, me disse que um amigo dela chegou no colégio com a Esquire nas mãos. A nova geração gosta do impresso, mas sempre será nichado, nunca o que já foi. E, tudo bem."

Se pudesse enviar uma mensagem para os leitores do futuro, qual seria?

"Leiam Philip Roth, Elizabeth Strout, Don DeLillo, Cormac McCarthy, Murakami, Ian McEwan, Toni Morrison, Karl Ove Knausgard, Tove Ditlevsen, JM Coetzee, Svetlana Alexievich, John Updike, Saul Bellow, Hemingway, Michel Houellebecq, James Salter e John Williams, entre muitos outros, não nessa ordem."

Mini bio 

Luciano Ribeiro é diretor-geral da Esquire Brasil. Jornalista de formação, foi repórter e editor em veículos como O Globo, Trip, TPM e Vogue. Antes de assumir a revista, fundou sua própria editora, a Carbono, comandou a área comercial da Condé Nast por quase quatro anos e, mais recentemente, passou a atuar como agente do ator Cauã Reymond

*Colaboração Clarice Santana

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