
No discurso, o futuro do trabalho já chegou: flexibilidade, autonomia, tecnologia e modelos híbridos. Na prática, para milhões de mulheres, ele ainda não se sustenta na vida real.
No Brasil, cerca de 7,8 milhões de mulheres vivem com filhos sem cônjuge no domicílio, segundo o IBGE, com base no Censo 2022, divulgado em 2025. Estimativas mais amplas da FGV apontam que esse número pode chegar a aproximadamente 11 milhões de mães solo, ao considerar diferentes configurações familiares e a responsabilidade exclusiva pelo cuidado.
O dado ajuda a dimensionar o tamanho do desafio quando o assunto é conciliar carreira, renda e cuidado. Ao mesmo tempo, as empresas avançam no discurso: ampliam políticas de diversidade, falam mais sobre saúde mental e adotam o trabalho híbrido como novo padrão. Mas a distância entre intenção e estrutura ainda é evidente.

Afirma Dani Junco, CEO da B2Mamy — 1ª plataforma de inteligência de mercado que conecta marcas à maior comunidade materno-infantil do Brasil —, escritora e creator. Para ela, a maternidade ainda é frequentemente interpretada como perda de produtividade, e não como desenvolvimento de competências. Segundo Dani, “a penalização invisível segue existindo na contratação, na promoção e na percepção de liderança.” Essa contradição aparece com clareza no cotidiano de quem vive essa conciliação.
Para Charlotte Guinett, gerente de inovação da Endered — plataforma global de serviços e meios de pagamento —, mãe de quatro filhos, o modelo híbrido trouxe avanços concretos.
“Hoje eu consigo regular melhor os ritmos e demandas, mas ainda existem momentos difíceis, como agendas que não consideram a rotina com filhos.”, conta Charlotte.

O apoio da empresa e da rede familiar faz diferença, mas não é regra. Na prática, o que se consolidou como benefício ainda depende de contexto, liderança e cultura. Flexibilidade, quando real, muda a dinâmica. Quando não, vira apenas narrativa corporativa.
A experiência de Laís Mendonça, Head de operações do STATE — centro de inovação focado em inovação urbana e o futuro do trabalho — reforça esse ponto. Para ela, a possibilidade de ajustar horários e, em alguns momentos, integrar filhos ao ambiente de trabalho foi decisiva para tornar a rotina viável. Ainda assim, o maior desafio permanece o mesmo: o tempo.

Essa equação se torna ainda mais complexa quando não há rede de apoio estruturada. Renata Ferreira, assistente de operações do STATE, viveu a maternidade em sua forma mais exigente: criando a filha sozinha desde o primeiro ano de vida. “Não foi fácil. Tudo ficou sob minha responsabilidade: casa, trabalho, escola, saúde.” Em diferentes momentos, precisou tomar decisões difíceis para manter a renda e garantir o cuidado. Hoje, mesmo com a rotina mais estabilizada, o desafio continua sendo administrar o tempo, entre trabalho, estudo, casa e autocuidado.
“Eu durmo pouco, mas sei que é uma fase", conta Renata.

Se, por um lado, a estrutura ainda não acompanha a complexidade da vida real, por outro, a maternidade segue desenvolvendo competências diretamente alinhadas ao futuro do trabalho. Gestão de crise, tomada de decisão rápida, adaptabilidade, negociação e empatia são algumas das habilidades que, segundo Dani Junco, são centrais, e ainda subestimadas pelo mercado.
“As empresas continuam olhando para as mães pelo viés da limitação, não da potência", informa Dani.
Essa potência também se manifesta fora do ambiente corporativo tradicional. Na música, ela ganha outra forma. Para Mari Claro musicista e cantora, mãe de dois filhos, a maternidade reorganizou completamente o tempo, e, ao mesmo tempo, expandiu o processo criativo.
“Aprendi a usar melhor as poucas horas disponíveis e a aceitar que não vou dar conta de tudo o tempo inteiro”, afirma, Mari.
Para a cantora e musicista, “entre ensaios, apresentações e a rotina da casa, o equilíbrio vem menos da perfeição e mais da adaptação constante", reforça Mari.
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A presença ativa do parceiro, nesse caso, é um diferencial. Ainda assim, a artista aponta para um desafio estrutural recorrente: a falta de tempo, espaço e valorização para mães em áreas criativas. “Muitas produzem de madrugada, no único momento possível de silêncio”, conta a artista. O que conecta todas essas histórias é menos o setor de atuação e mais a arquitetura invisível que sustenta, ou dificulta, a conciliação.
O trabalho híbrido, a tecnologia e os novos modelos de produtividade abriram caminhos. Mas, como resume Dani Junco, ainda estamos “tentando encaixar mães em modelos antigos usando ferramentas novas”. O ponto central talvez seja outro: produtividade ainda é medida por presença, e não por impacto. Enquanto essa lógica não muda, mães seguem operando em múltiplas jornadas dentro de um sistema que não foi desenhado para elas. E isso não é uma questão individual. É uma questão econômica, social e corporativa.
Neste Dia das Mães, mais do que celebrar, o STATE aponta para um ajuste urgente: parar de tratar a maternidade como exceção e reconhecê-la como parte central da força de trabalho contemporânea. Para Jorge Pacheco, CEO e fundador do STATE, ter mães na equipe amplia o senso de responsabilidade, cuidado e comprometimento dentro das empresas.
“São pessoas que valorizam a oportunidade de trabalho, se dedicam e muitas vezes se destacam justamente pela capacidade de gestão, organização e olhar humano sobre as relações”, afirma.
*Colaborou Clarice Santana
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