INNOVATION

O futuro feito por elas

08.03.2026

No Dia Internacional das Mulheres, o STATE reuniu cinco empreendedoras que, em campos distintos, têm algo em comum: estão transformando suas próprias experiências em soluções estruturais. Da segurança alimentar à saúde feminina, do esporte à inovação corporativa e à cultura, elas mostram que o empreendedorismo pode ser uma ferramenta concreta de mudança social.

Empreendedorismo social - Fernanda Lion

Na associação, formada por muitas mulheres e sem fins lucrativos Tonkiri, a empreendedora Fernanda Lion partiu de uma ação emergencial durante a pandemia para criar uma rede que hoje distribui cerca de 7 mil marmitas por mês.

Com formação em serviço social e panificação, Fernanda, participou da estruturação da associação que alia assistência imediata e transformação de longo prazo. O curso + Q Pão, principal frente de capacitação, que já formou mais de 100 mulheres, combina técnica, gestão, mentorias e fortalecimento emocional. Para Fernanda, a lógica é clara: “segurança alimentar e geração de renda caminham juntas”. “Alimentar, amparar e promover o voo não é apenas missão, é método”, ressalta.

Empreendedorismo no esporte - Veridiana Bressane

Já a jornalista e multiartista Veridiana Bressane encontrou no esporte o ponto de partida para algo maior. A Girls On Board, atualmente com base em Portugal, nasceu da percepção de uma desigualdade estrutural na forma como mulheres eram representadas em esportes radicais.

Hoje, tornou-se um ecossistema internacional que conecta liberdade, cultura, bem-estar e ativismo. Para a comunicadora, equidade exige mais do que discurso: “requer metas, métricas e responsabilidade da liderança”. Segundo Veridiana, “liderar é ter coragem de sustentar visão e impacto sem abrir mão da humanidade”.

Empreendedorismo na saúde feminina - Nathália Tôrres

Na área da saúde, a mãe e empreendedora Nathália Tôrres transformou sua experiência da maternidade na criação da empresa Eva Saúde.

A startup atua como navegadora da jornada feminina, integrando tecnologia e cuidado para reduzir lacunas históricas no atendimento à mulher. Ao trabalhar com empresas na construção de políticas estruturadas de retenção e apoio perinatal, a Eva busca enfrentar um dado persistente: a penalização profissional após a maternidade. Para Nathália, a proposta é clara: “tecnologia como ponte, não como barreira”.

Empreendedorismo na inovação - Gabriela Aguiar

No ecossistema de inovação, a empresária Gabriela Aguiar construiu carreira conectando grandes empresas e startups, defendendo a diversidade como estratégia de performance. Em um ambiente ainda majoritariamente masculino, aprendeu que presença precisa vir acompanhada de transformação estrutural.

Para ela, “governança, metas e accountability são indispensáveis para que diversidade deixe de ser narrativa e se torne resultado”. Acompanhando as fundadoras, ela destaca uma força recorrente: “colaboração como vantagem competitiva e foco rigoroso na execução”.

Empreendedorismo na cultura - Sofia Costa

Na intersecção entre arte, cidade e impacto social, a produtora cultural e designer Sofia Costa construiu uma trajetória que une formas, cultura e transformação urbana. Seus primeiros estágios, ainda no colegial, já estavam ligados à arte, no acervo do Museu da Imagem e do Som e na montagem de uma exposição na Casa das Rosas. A convivência com o ambiente acadêmico, acompanhando a mãe na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo e visitando a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo, FAUUSP, despertou sua proximidade com a arquitetura e, sobretudo, com a cidade.

“Eu amo a cidade e amo pessoas. Por isso acho São Paulo algo impressionante. Gosto de observar as mais diversas formas como as pessoas se relacionam com o espaço urbano.” A pichação, segundo ela, é um fenômeno que a emociona profundamente, “desde os tempos do Juneca Pessoinha e do Cão Fila km 26”. Essa mistura de poesia, marginalidade, crítica social, vandalismo e arte consolidou seu interesse por cidade, comunidade e processos coletivos. “A transformação dos espaços é um tema que venho continuamente pensando, experimentando e testando no meu trabalho.”

Ao falar sobre os desafios de gênero, Sofia é enfática: “Ser mulher na área cultural é, ainda hoje, uma luta.” Ela relembra que, aos cinco anos, questionou o próprio nome, “Sofia”, e disse que gostaria de se chamar Leandro, pois já percebia que ser homem trazia vantagens. Anos depois, a leitura de bell hooks ajudou-a a compreender as estruturas de racismo e machismo que atravessam a sociedade. Reconhecer que os espaços culturais e artísticos continuam marcados pelo patriarcado foi decisivo para sustentar sua trajetória.

A construção coletiva é outro eixo central de sua atuação. Nos últimos quinze anos, desenvolveu trabalhos em processos horizontais e, mais recentemente, optou por equipes predominantemente formadas por mulheres. Mãe de um menino de onze anos, construiu em Lisboa, sua casa por 13 anos,  uma rede de apoio baseada na sororidade. “Sem esse apoio, teria sido impossível realizar o percurso profissional que fiz e continuo a fazer.” Para Sofia, que vive a maternidade intensamente, entre dois países, essa parceria transforma não apenas o trabalho, mas toda a vida.

Entre as mulheres que moldaram seu olhar, Sofia cita bell hooks, Grada Kilomba, Marina Abramović e Sueli Carneiro, além de suas companheiras de vida e trabalho: Zoy Anastassakis, Licia Soldavini, Maddalena Pornaro, Julia Murat, Joana Cooper, Marianna Monteiro e Lígia Afonso. “Essa lista nunca termina, todos os dias encontro mulheres fenomenais que seguem ampliando o meu olhar e o meu mundo”, ressalta Sofia. 

Viver entre Brasil e Portugal foi, segundo ela, um exercício de “re-existência”. “Ser estrangeira fortaleceu a minha identidade, percebi o que em mim é profundamente brasileiro: a criação coletiva, a abertura ao encontro e a capacidade de inventar caminhos mesmo em terrenos difíceis.” E completa: “Como mulher criadora, aprendi a ocupar o meu espaço e também aprendi que voltar para o Brasil talvez seja a melhor parte de morar fora.”

Neste Dia da Mulher, sua mensagem é direta: “Escutar, olhar, observar, trocar, conversar, encontrar e fazer, fazer, fazer e fazer. Não pensar demais, e não esquecer gente é para brilhar!”

Os números do empreendedorismo feminino

Os números mais recentes reforçam a importância dessas trajetórias. Segundo o relatório mais atual do Global Entrepreneurship Monitor (GEM 2024/2025), as taxas de empreendedorismo feminino seguem crescentes em muitos países, mas a participação ainda é desigual: mulheres representam cerca de 38% a 42% da atividade empreendedora total em economias avançadas e em desenvolvimento, dependendo da região analisada. Em 2025, observa-se que em muitos mercados emergentes a participação feminina empreendedora está próxima à dos homens quando considerados negócios iniciais, segundo o relatório TEA — Total early-stage Entrepreneurial Activity, e que há um aumento sustentado no número de mulheres que estabelecem negócios com intenção de crescimento.

Além disso, dados de painéis regionais, como o OECD/European Commission indicam que mulheres continuam a enfrentar maiores barreiras de acesso a financiamento, capital externo e redes de apoio, e que, em média, recebem menos investimentos do que empresas lideradas por homens, apesar de apresentarem taxas de retorno iguais ou superiores em vários mercados. A presença feminina empreendedora também está fortemente correlacionada com políticas públicas de inclusão, acesso a crédito e apoio à liderança feminina.

Já o relatório Female Innovation Index 2025, mostrou que, na Europa em 2024, empresas fundadas por mulheres levantaram €5,76 bilhões, o equivalente a 12 % de todo o capital de risco investido no continente, com queda em relação a 2023 e abaixo das proporções ideais. Os dados refletem a continuidade da barreira de acesso a investimento.

As trajetórias são distintas, mas convergem em um ponto essencial: nenhuma dessas mulheres constrói sozinha. Redes, parcerias e senso de comunidade aparecem como ativos estratégicos. O futuro que elas desenham não é apenas tecnológico, é sistêmico, colaborativo e mais consciente das desigualdades que precisam ser enfrentadas.

Neste 8 de março, a mensagem que fica é objetiva: não basta ocupar lugares em estruturas que não funcionam. É preciso ter coragem para reinventá-las. E, sobretudo, fazer isso juntas.

*colaborou - Clarice Santana

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