Mães cientistas

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28/11/2023

Mães cientistas

A maternidade em diferentes perfis e o impacto na vida das responsáveis.

Na língua portuguesa, a palavra mãe deriva-se do latim “mater”. Nos primeiros séculos do idioma latino, era “madre” e depois evoluiu para o chamado atual: - Mãe, mother, madre, mum, mama, mére todas são muito semelhantes. A sonoridade do chamado de um filho para uma mãe ou de uma mãe para um filho tem um elo especial e forte. E, a ciência já descobriu, em nível biológico, alguns fatos fascinantes sobre esse vinculo único.

Segundo pesquisadores da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, ao testar em bebês conversas em outra língua ou com a voz de suas mães, foi comprovado que: os recém-nascidos conhecem a voz das mães, desde o útero.

Uma conclusão razoável dos testes realizados com 80 recém-nascidos que ao ouvirem conversas em outro idioma e também a fala de suas progenitoras, puderam controlar, por meio da sucção da chupeta, quanto tempo os sons eram tocados. Assim, os bebês acabaram sugando por mais tempo enquanto ouviam idiomas diferentes dos seus, afirmando que os mecanismos neurológicos necessários para a audição são desenvolvidos por volta das 30 semanas após a concepção.

Sabemos, também, que uma mãe pode deixar seus filhos com taxas significativamente mais baixas de: alergias, asma, dermatite e outras doenças autoimunes, apenas pelo compartilhamento de saliva, de acordo com uma pesquisa, publicada na revista científica American Academy of Pediatrics.

Mas, até agora falamos, apenas, do impacto de uma mãe na vida de um filho e qual o impacto de um filho na vida de uma mãe?

Com a pandemia mundial do coronavírus ficou comprovado que as mães não precisam só de autocuidado, mas, sim, de alguém que cuide delas, afirma Suniya S. Luthar, professora emérita da Faculdade de Professores da Universidade de Columbia (EUA) e pesquisadora de resiliência emocional, em entrevista a publicação inglesa BBC.

A pesquisadora partiu da metáfora ouvida por mães, sobrecarregadas, de que elas devem assim como ditam as regras de segurança em voos de avião, colocar a máscara de oxigênio em si mesmas antes de colocarem-na nas crianças. A frase costuma se referir à importância das mães em cuidarem de si mesmas, em vez de só priorizarem as crianças.

"Quando usam a metáfora da máscara de oxigênio, eu digo que não se trata de colocar a própria máscara de oxigênio antes de colocar a dos filhos. Mas sim ter alguém perto que possa colocar a sua máscara para você. Porque nós, mães, também muitas vezes estamos sem ar. Eu certamente estive nos últimos dois anos (da pandemia de covid-19), e muitas outras mulheres estiveram, porque foi um período muito traumático", explica ela em entrevista à publicação.

Em homenagem ao dia das mães, o STATE Journal conversou com mães de diferentes perfis para entender como a maternidade pode impactar na vida das responsáveis.

A jornalista Marcela Dangot, viu seu mundo virar der pernas para o ar, após descobrir seu segundo câncer de mama, já com as filhas um pouco maiores e com um entendimento do que estava acontecendo.

Sua principal preocupação era de como contaria para suas filhas sobre a doença e o tratamento. E, como consequência, como contaria sobre sua careca.

“Da primeira vez que fui diagnosticada, as meninas eram pequenas, então eu usava peruca, tudo era uma festa, elas não tinham um entendimento do que estava acontecendo ao redor”, relembra Marcela.

Com o apoio de seu marido e pai das meninas, a jornalista decidiu montar um salão em casa, onde suas filhas rasparam seu cabelo junto com o pai. “Esse momento, tornou a coisa mais leve, para mim e para elas”, conta Marcela ao dizer sobre como enfrentou os “olhares” da sociedade ao sair de lenço ou turbante, num verão brasileiro, onde usar peruca era impossível.

O caminho percorrido pela comunicadora, pela segunda vez, junto com o cuidado que ela teve de sua família, resultou no livro: “Careca da mamãe”, onde conta de maneira lúdica como foi a sua experiência.

Para Marcela Dangot:

“A força para levar inspiração para outras pessoas em situações parecidas, por meio do livro, veio da tranquilidade em saber que as filhas estavam bem e saber que poderia contar com o amparo de seu companheiro”.

No caso de Marcela, o impacto das filhas em sua vida, fez com que a comunicadora transmutasse a doença para algo simples, como estar “apenas” sem cabelo.

Foto de National Cancer Institute na Unsplash

O impacto da maternidade na vida das mães

Já na situação da mestranda em Educação pela UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais, Gisele da Mata, ou Gisa, a chegada da maternidade, não assumida pelo pai, foi de “muito choque e impacto direto na minha rotina profissional e acadêmica”, conta a pesquisadora. Que na época, havia acabado de receber oportunidade de promoção no trabalho (que foi suspensa) e aprovação em um programa de intercâmbio (foi adiado e ainda não retomado).

Buscando entender este cenário, o Movimento Parent in Science realizou, durante o isolamento social relativo à covid-19, o levantamento de produtividade acadêmica durante a pandemia. Ao todo foram quase 15 mil cientistas, entre discentes de pós-graduação, pós-doutorandas(os) e docentes/pesquisadores que responderam os questionários. Conclusões: 47,4% das mulheres com filhos obtiveram êxito neste quesito e 56,4% das pesquisadoras sem filhos cumpriram as suas metas. Já a diferença entre homens e mulheres relacionados ao tema é de 68,7% e 49,8%, respectivamente.

Gisele se define como mulher negra, feminista e pesquisadora. Ela também é mãe dos gêmeos Eleonora e Bartolomeu, diagnosticado no Transtorno do Espectro Autista (TEA) aos dois anos de idade.

Para Gisele, conciliar a carreira acadêmica/profissional e vida pessoal com a maternidade, é um desafio que “ainda está respondendo”, afirma a pesquisadora em conversa por e-mail. Durante nossas trocas de mensagens, a pesquisadora realizou um malabarismo para conceder a entrevista, e confessa que “não é possível sem rede de apoio, sejam as permanentes ou as transitórias (essa última categoria estou desenvolvendo na minha dissertação inclusive). E considero as redes de apoio as famílias/amigos, instituições públicas (escolas ou creches, a própria universidade, por exemplo, mas não isentando saúde e lazer). Minha principal rede de apoio é minha mãe, com quem moro junto com meus filhos, meu irmão e a família dele. Então, consigo trabalhar, estudar, pesquisar e cuidar/criar/educar os gêmeos por que posso contar com ela e a equipe multidisciplinar que o acompanha”, conta a cientista.

Gisa afirma que os maiores desafios do "conciliamento", entre a maternidade, vida acadêmica, profissional e pessoal, é um desafio ainda maior para uma mãe solo. Para a pesquisadora, “esse motivo mostra um dos maiores desafios: a logística estrutural.

“Chamo de logística estrutural tudo e todas as coisas que só você como "mãe" pode resolver, exemplo disso foi fazer o tratamento dentário da minha filha que resultou em duas extrações. Antes precisamos conhecer o consultório e a dentista, os equipamentos e verificar o que teríamos que fazer, em seguida fazer o raio-x (o que demandou ir a três clínicas radiológicas distintas porque na primeira foi traumatizante e ela não queria realizar o exame, e sem ele não era possível fazer o tratamento), depois disso a extração propriamente dita. Mas minha mãe por mais afeto e carinho não poderia levá-la primeiro porque já me auxilia nas terapias com meu filho e segundo por que teria uma postura mais autoritária com ela nesse ambiente e momento que é tão sensível”.  

Culpa e maternidade

Para Gilliane Trindade, professora do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG e mãe da Sofia e da Beatriz:

“Quando nasceu uma mãe, nasceu uma culpa, pois quando se sai de licença maternidade da vida acadêmica, a licença foi apenas para atividades de ensino, ou seja dar aulas”, relembra a docente ao falar sobre sua primeira gestação.

Segundo ela, seus alunos continuaram os projetos, e os projetos vigentes continuaram correndo e sua culpa só aumentava.

Já no caso de sua segunda filha, na semana em que se preparava para o parto, Gilliane recebeu o retorno de um edital que deveria sair, junto com a prestação de contas do projeto.

“Eu percebo que a culpa em parte vem, porque o sistema não dá um apoio para essas mães. Eu não tinha apoio de falar:- olha estou de licença maternidade e não vou entregar esse relatório em tempo hábil”, conta.

De acordo com a pesquisadora, esses caminhos vêm mudando. E, ela agradece as mulheres que desenvolveram o estudo do Parent in Science, grupo é formado por 15 mães e um pai, todos professores e pesquisadores no Brasil, que por meio de um esforço conjunto, pesquisam e discutem a temática.

Durante o estudo realizado entre abril e maio de 2020, foi apontado que, apesar das mulheres serem maioria na pós-graduação, apenas 27% delas conseguiram trabalhar remotamente durante o período de confinamento.

As pós-graduandas mães e negras foram as mais penalizadas, apontou a pesquisa. Segundo o estudo, 25,7% das entrevistadas pertencem a esse grupo e apenas 9,9% dessas mulheres tiveram condições de seguirem com os projetos acadêmicos. Já sobre as mães brancas, 11,6% conseguiram manter os compromissos acadêmicos.

Desde o ano passado, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) disponibiliza na plataforma currículo lattes o campo de licença-maternidade, que contribui pela equidade de gênero na área científica. Anteriormente, dados do Programa Jovens Pesquisadoras do CNPq já apontavam que as mulheres tendem a diminuir os avanços na carreira científica com o tempo, apesar de serem 49% dos cientistas que atuam no Brasil, segundo relatório sobre Gênero no Cenário de Pesquisa Global, publicado em 2017 pela Elsevier.

Ser mãe

Quando abordamos a questão sobre ser mãe, para cada uma das entrevistadas a resposta foi praticamente unanime, um equilibro de funções:

“Ser mãe para mim é uma ambivalência, porque é o maior desafio que da minha vida todos os dias. E, ao mesmo é um transbordar de amor”, afirma a cientista Gilliane Trindade

Para a jornalista Marcela Dango, ser mãe é “uma força de poupar suas filhas de qualquer sofrimento com leveza e de forma lúdica”.

E, por fim, para a mestranda em Educação, Gisele da Mata, mãe dos gêmeos Eleonora e Bartolomeu, a maternidade é: “Ser o que se quiser ser, sem medidas, sem tamanho e sem limites”.

*Colaborou: Clarice Santana

STATE journal

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