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O que uma startup de base científica precisa saber antes de procurar um fundo de investimento?
Para nos ajudar a explicar sobre este assunto, convidamos Paula Salomão, Sócia e Diretora de Estratégia e Novos Negócios na Antera Gestão de Recursos.
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Nos últimos meses muitos portais, hubs de inovação, aceleradoras, incubadoras, universidades e corporações estão falando sobre a importância que devemos dar para as áreas de P&D e inovação. Em decorrência da pandemia, alguns grandes exemplos de iniciativas em Deep Technology e pesquisa foram apresentados, como é o caso das vacinas de mRNA da BioNTech e Moderna desenvolvidas a partir dos 30 anos de pesquisas da cientista húngara Katalin Karikó.


Entretanto, por mais que o interesse em P&D e inovação esteja crescendo cada vez mais, ainda existe um “gap” muito grande entre o mercado e a ciência empreendedora. Pensando nisso convidamos a Paula Salomão, Sócia e Diretora de Estratégia e Novos Negócios na Antera Gestão de Recursos, empresa parceira do STATE, e uma das pioneiras em investimento em soluções de base científica no Brasil desde 2007 para nos ajudar a explicar o que cientistas empreendedores precisam saber antes de começar a captar recursos e o que VC’s focados em investimentos em startups de base científica e tecnológica procuram.


STATE: Paula, primeiramente gostaríamos de te agradecer por aceitar o nosso convite em participar desta entrevista. E para iniciar essa conversa gostaríamos que você contasse um pouco sobre a sua carreira e de onde veio sua motivação para trabalhar com negócios de base científica e tecnológica.


Paula: Agradeço ao State o convite e a oportunidade de trazer para discussão um tema tão importante. Comecei a trabalhar com a aproximação entre ciência e negócios em 2007, através do Programa de Incentivo à Inovação (PII) do Governo de Minas Gerais, que visava aproximar os pesquisadores e cientistas da universidade e da EMBRAPA do mundo dos negócios. Ao longo de quase 4 anos tive a oportunidade de realizar e coordenar a execução de diversos estudos de viabilidade e planos de negócios baseados em ciência, o que me cativou para seguir minha carreira profissional nesse caminho e me permitiu acompanhar de perto o nascimento e crescimento dessa discussão no Brasil. Aprofundei meu conhecimento sobre um tema, fazendo meu mestrado na Poli/USP sobre spin-offs acadêmicos de origem científica e meu doutorado na COPPE/UFRJ sobre o potencial de escalabilidade de negócios baseados em ciência (scale-up science). Profissionalmente, tomei como missão alavancar o desenvolvimento inovador através da atuação em instituições e projetos que me permitiram acompanhar e acelerar o crescimento de diversos negócios, seja para internacionalização (pelo PEIEX/APEX Brasil), para o grande crescimento e geração de impacto (operando o Endeavor Innovation Program), lidando com cadeias globais e tecnológicas (atuando no NAGI O&G), para suporte e aceleração de startups e pequenas empresas de base tecnológica (no Parque Tecnológico da UFRJ) e, atualmente, na Antera Gestão de Recursos, como investidora.


S: Sabemos que existem várias etapas para desenvolver um negócio, e também inúmeros caminhos a serem seguidos para uma real aproximação da academia com o mercado. Porém, em determinada fase, a captação de recursos e investimentos se torna crucial. Na sua opinião qual é o primeiro passo que cientistas empreendedores e startups de base científica devem dar para conseguir atrair investidores?


P: A jornada para o desenvolvimento de um novo negócio é bem mais complexa do que a estruturação de um projeto de pesquisa científica, porque alguns fatores que impactam seu sucesso ou fracasso estão fora do controle do empreendedor pesquisador. Quando um cientista empreendedor decide desenvolver um novo empreendimento a partir do seu conhecimento acadêmico ou do resultado de alguma pesquisa, sua mentalidade ainda não está transformada em uma mentalidade empreendedora. Por que eu digo isso e o que isso tem a ver com a atração de investidores? Porque os dinheiros existentes para apoiar os diversos tipos e fases de negócio são diferentes e as expectativas dos diversos investidores são diferentes e, muitas vezes, os cientistas empreendedores não estão atentos a essas diferenças e saem em busca dos dinheiros errados, em momentos errados e para os usos errados. Por isso, o primeiro passo para ter sucesso nessa jornada, é utilizar o potencial investigativo dos acadêmicos e buscar respostas a algumas perguntas: o que é o meu negócio? Em que fase eu estou nesse momento? Onde eu quero chegar no futuro e quais são meus próximos passos de curto e médio prazo? Quais recursos (físicos, humanos, de conhecimento, comerciais, financeiros) eu preciso mobilizar para sair de onde estou hoje e alcançar esse futuro? Como eu consigo mobilizar esses recursos, sem precisar de investimento financeiro? Se preciso realmente de dinheiro, em qual etapa ou para qual propósito eu o utilizaria nessa trajetória e qual distância eu percorro ou acelero considerando um aporte financeiro? Considerando quem eu sou, onde estou e para que preciso do dinheiro, qual o perfil investidor mais adequado para meu negócio? Qual investidor (público, privado ou pessoa física) mais agregaria ao meu negócio, considerando o que ele pode me oferecer além do dinheiro? Feita uma reflexão crítica sobre essas questões, o cientista empreendedor estará mais preparado para estruturar seu negócio e atrair (se necessário) o melhor investidor para alavancar sua jornada. Startups bem sucedidas na atração de investidores sabem muito bem o que são, o que precisam, para que precisam e quando precisam! Reconhecem que existem bolsos diferentes e batem na porta certa!


S: Na sua carreira você passou por experiências dentro de universidades e parques tecnológicos acompanhando o crescimento e desenvolvimento de diversos negócios, além de ser especialista em empreendedorismo, spin-offs acadêmicos e investimento em startups, portanto, qual dos tipos de investimento seria o mais adequado e seguro para as diferentes fases de uma startup de base científica e por que?


P: Os tipos diversos de investimento existentes acompanham muito bem as fases de estruturação dos novos negócios e os diversos riscos inerentes a cada fase. Mas, antes de detalhar esse ponto, nunca devemos perder de perspectiva que, mesmo sabendo que alguns empreendimentos precisam substancialmente de recursos para se desenvolver, o dinheiro que todo empreendedor deve buscar para o seu negócio é o do cliente! Essa é a maior validação de todas, o melhor indicativo de potencial de sucesso e o fato que impulsiona outras captações, sendo que essas devem ser vistas como alavanca ou aceleração do crescimento do negócio. Feito esse breve parênteses, posso voltar às fases do negócio e tipos de investimento. Uma forma bastante interessante de entender essas diferenças é diferenciar os tipos de risco existentes no caminho empreendedor e ligá-los aos tipos de investidores que estão dispostos a tomar cada tipo de risco.

Bem no começo, quando ainda temos uma ideia não desenvolvida e há um risco tecnológico ou de produto grande, porque o protótipo ainda está em desenvolvimento e não existe um produto funcional validado, os investidores institucionais (como as fundações de amparo à pesquisa, as agências de fomento, institutos ou outros apoiadores de ciência e tecnologia), muitas vezes com recursos subvencionados, são os mais frequentes e aderentes. Em determinado momento dessa etapa podem entrar também os investidores anjo, caso eles sejam pessoas com atuação e expertise ligados à área de conhecimento do novo empreendimento e que são capazes de vislumbrar o potencial daquela aplicação, mesmo com um alto risco de implantação tecnológica.

Após esse primeiro desenvolvimento, o segundo risco está associado ao mercado, e à adoção efetiva da solução proposta pelos potenciais clientes. Nesse momento, entram com maior facilidade os anjos e os primeiros investidores profissionais, gestores de fundos anjo e capital semente. Os novos negócios vão se tornando mais atrativos para os cheques de investimento maiores, à medida que conseguem provar que seu produto é demandado e que o modelo de negócios aplicado está sendo aceito pelos potenciais clientes. Nesse ponto é importante destacar que os investidores profissionais, quando analisam um novo negócio, querem identificar se o recurso que eles estão aportando será utilizado para o crescimento do negócio, e não para resolver problemas passados (que mantém aquele empreendimento em uma zona de alto risco).

Passadas essas fases iniciais, os fundos que aportam as chamadas série A, série B, série C e assim sucessivamente, buscarão negócios em fase de crescimento, nos quais os aportes servirão para profissionalização da gestão, crescimento comercial, expansão do negócio e da linha de produtos, entre outros. Nessas fases de investimento, com aportes multimilionários, os riscos tecnológicos, de produto, de entrada no mercado e de modelo de negócios já devem ter sido eliminados ou estar bastante reduzidos e o empreendedor deve estar mirando no crescimento acelerado do seu empreendimento.

Lógico que existem exceções a essa regra, mas muitas vezes essas exceções estão ligadas a um histórico empreendedor excepcional do time envolvido ou à identificação de investidores com teses de investimento umbilicalmente sinérgicas ao novo negócio nascente ou com relacionamento de longa data com os empreendedores.


S: Como falamos na introdução desta entrevista, nos últimos meses vimos alguns cases de grande soluções que foram criadas a partir dos investimentos nas áreas de P&D e inovação. Na sua opinião qual é o principal ponto que precisa melhorar para que esta aproximação entre a universidade e o mercado aconteça de forma mais natural e frequente?


P: A ciência e a universidade tem um papel importante no desenvolvimento inovador e são fundamentais no crescimento e na autonomia de uma nação. Apesar de não acreditar na linearidade entre investimento de na ponta da ciência e da pesquisa e o resultado em termos de geração de valor, por tudo que já estudei e vivi, vejo que há sim um potencial enorme de geração de soluções aplicadas aos diversos problemas existentes, proveniente de áreas de conhecimento científicas e operados por pesquisadores empreendedores. Na minha opinião, para que isso aconteça de forma mais fluida, os principais obstáculos ou pontos de melhoria estão no binômio incentivos e cultura. Incentivos porque a política de estímulos ao desenvolvimento e crescimento acadêmicos não estão alinhados ou não conversam com aqueles praticados pelo mercado e, muitas vezes, os objetivos ou metas impostos aos cientistas e pesquisadores não os guiam para o desenvolvimento empreendedor ou para a inovação (entendendo-a como a geração de valor real obtida a partir da aplicação prática de determinada solução no aproveitamento de oportunidades ou solução de problemas). Cultura porque as visões de mundo e de futuro, as expectativas de carreira, os heróis e os atributos de sucesso são muito diferentes entre os cientistas e pesquisadores e os empreendedores. Contornar essas questões leva tempo, demanda articulação política e institucional e, acima de tudo, exige uma mudança de mentalidade que será construída a partir da existência e do sucesso de mais iniciativas empreendedoras originadas dentro da academia, capazes de inspirar as novas gerações.


S: A Antera é uma empresa de Gestão de Fundos, dentre os fundos que vocês gerem existem os fundos Primatec e Criatec. Qual é a tese de investimento de cada um? 

Poderia contar um pouco sobre os investimentos realizados e algum case de sucesso?


P: A Antera é uma gestora com tese de investimento em inovação em empresas de base tecnológica. Nosso primeiro fundo, o Criatec, atualmente em fase de investimento, buscou (entre 2007 e 2012) a pequena empresa inovadora brasileira, desenvolvendo ciência e tecnologia de ponta. Foram feitos 36 investimentos e temos mais de uma dezena de casos de sucesso, como a Arvus (agricultura de precisão), Geofusion (marketing georreferenciado), Rizoflora (controle biológico de pragas agrícolas), Radiopharmacus (radioisótopos com aplicação em saúde), Magnamed (ventiladores pulmonares), e muitas outras, entre saídas de sucesso e algumas que ainda estão no portfólio. A Magnamed, ainda na carteira, é uma empresa que cria, desenvolve e produz ventiladores pulmonares primando pela inovação, eficiência, qualidade e custo/benefício. A  empresa é especializada em dispositivos médicos, seja para UTI (Unidades de Terapia Intensiva), para transporte / resgate de pacientes, incubadoras neonatais e outros. A empresa exporta uma família completa de ventiladores para mais de 50 países e teve ação e presença fundamental no país no atendimento ao governo em época de pandemia. Ela foi capaz de aumentar a produção em dez vezes, reduzir seu custo de produção significativamente e mobilizar uma cadeia de apoio substancial para operação e produção com agilidade e qualidade em meio à crise do coronavírus.

O Primatec, atualmente nosso fundo em período de investimento, é focado em empresas de base tecnológica, instaladas em incubadoras e parques tecnológicos. Investimos, preferencialmente, nos setores de energia, sustentabilidade, economia criativa e tecnologia da informação e comunicação. Sobre a questão da base tecnológica, olhamos negócios que apresentem um diferencial grande baseado em tecnologias de ponta, como IA, visão computacional, machine learning, nanotech, biotech e outros. Foram feitos 12 investimentos e devemos fechar o fundo esse ano, com 15 negócios na carteira.



S: Ao analisar uma startup de base científica, quais os principais elementos que vocês consideram? (ex.: time, perfil técnico, inovação, oportunidade de mercado, etc)


P: Quando avaliamos um novo investimento, não existe um ponto mais relevante ou destacado, porque buscamos entender o negócio como um todo e com profundidade, para saber como agregamos valor e se aquele negócio é capaz de crescer, gerar impacto significativo e dar retorno ao fundo. Porém, mesmo fazendo uma análise bastante ampla da oportunidade, alguns pontos são críticos. Um primeiro destaque vai para o time de sócios empreendedores e o quanto esse grupo é capaz de executar o plano que está sendo criado para o negócio e se todos têm uma visão de crescimento alinhada às expectativas do fundo. Segundo, eu destacaria o mercado de atuação, buscando entender seu tamanho, seu potencial de crescimento, a dinâmica de valor existente, a concorrência e como o negócio em análise rompe alguma trava ou resolve alguma questão crítica ainda não atendida e possui barreira (técnica ou mercadológica) suficiente para conseguir se posicionar bem e ter sucesso nesse mercado. Outro ponto está relacionado às rotas tecnológica e regulatória envolvidas, quando buscamos entender se a base do negócio está sendo construída sobre a rota técnica correta e mais alinhada às tendências globais e quais os riscos regulatórios e de propriedade intelectual envolvidos. Destaco também a potencial geração de impacto pelo novo negócio, quando identificamos e analisamos os aspectos sociais, ambientais e financeiros que são impactados positivamente pela empresa. E a rota de saída, sabendo que todo investidor financeiro não ficará sócio da empresa investida eternamente e, no futuro, venderá sua participação para alguém, esse é um movimento que mapeamos e avaliamos desde o momento zero.


S: Como você vê o ecossistema Brasileiro de base científica?  O que falta para melhorar e qual o papel dos diferentes atores para promovermos o desenvolvimento do nosso ambiente de empreendedorismo e inovação.


P: A minha visão para essa última questão ecoa vários pontos que trouxe ao longo da entrevista. Primeiro, não posso deixar de destacar o imenso potencial nacional para o desenvolvimento inovador baseado em um estoque de conhecimento científico de ponta, desenvolvido com grande competência pelos pesquisadores e cientistas nacionais. Para avançarmos, além das questões de incentivos e de cultura que já mencionei, precisamos promover uma articulação sistêmica entre os atores que fazem parte da cadeia produtiva da inovação. Ou seja, cada ator precisa conhecer e reconhecer: seu papel no ecossistema, suas atribuições e potencialidades, os demais atores envolvidos nesse processo. Isso feito, é necessária uma integração harmônica a esse conjunto, garantindo que os espaços e as funções necessários tenham sido ocupados, que os vínculos e laços de integração para sua articulação tenham sido criados e que o objetivo maior comum a todos seja claro e esteja alinhado às missões individuais. Afinal, não é possível gerar um resultado de grande impacto sistêmico, através da inovação advinda do conhecimento acadêmico nacional, se os que fazem parte dessa cadeia não conseguirem coordenar suas ações, seus recursos e seus esforços para produzir esse resultado.



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Site Primatec

Site Criatec


por,
Fernão Barboza